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Uma tentativa de ajuda a uma alma desesperada, que não sabe como se responde a isto

Estava eu sossegado a ver, no Youtube, um vídeo sobre o milagre dos Andes, quando me mostraram esta história no Instagram:



Como o vídeo já estava quase no fim e como não tinha algo melhor para fazer de seguida, decidi responder ao apelo da pessoa que publicou esta história e ajudá-la a responder.

A primeira hipótese de resposta é a ausência da mesma. Deixar os fachos a falar sozinhos. Cortar relações com eles. Uma pessoa deve evitar relações com pessoas tóxicas, dizem, e nada há de mais tóxico do que o fascismo. Além do mais, uma pessoa que vive na realidade paralela patente no texto reproduzido na imagem dificilmente regressará à nossa dimensão, pelo que é perda de tempo tentar convencê-la do que quer que seja. 

A segunda hipótese é responder à letra — não porque, de repente, tenhamos passado a acreditar que ainda é possível fazer a pessoa que escreveu aquilo mudar de ideias (não é), mas sim porque o contraditório é importante para convencer as pessoas que não estão convencidas, nem duma coisa, nem doutra. Todas as ideias  — mesmo o fascismo — parecem boas, até que as refutamos.

Então, respondamos à letra — e por partes, porque há muito para descascar aqui.

Para responder a isto, precisava de mais contexto — talvez uma ou duas mensagens anteriores. Como não o tenho, vou apenas fazer notar que é bastante típico da extrema-direita criticar (e, aqui para nós, com alguma legitimidade) a novilíngua politicamente correcta da esquerda. Mas o mínimo que se poderia esperar de quem acha mal passar a dizer «pessoa racializada» em vez de «preto» fosse chamar «retornados» às «pessoas que vieram das ex-colónias»… Coerência! Ou só há termos ofensivos quando convém?

Entre Maio de 1974 e Novembro de 1975, estima-se que tenham regressado a Portugal, vindos das antigas colónias, mais de 500 mil pessoas. Para efeitos comparativos, isto é o equivalente a entrarem perto de 320 mil pessoas por ano. Por outro lado, o número de estrangeiros residentes em Portugal aumentou em cerca de 1.100.000 imigrantes entre 2017 e 2024, o que dá uma média de aproximadamente 160 mil por ano. Metade. Quando falamos de «imigração controlada», suponho que estejamos a falar do número de pessoas que entram. Se assim for, os números não mentem: o fim da guerra e a descolonização foram um processo migratório muito mais descontrolado do que os últimos sete anos. Se, com «imigração controlada», queremos dizer que os que vieram entre 1974 e 1975 eram brancos e os que vêm agora nem tanto, então estamos só a ser racistas. Estamos nós e estavam os governantes da altura, já que definiram que só poderiam voltar a Portugal os descendentes dos brancos que para lá foram. Mas isso, agora, é um detalhe.

Quanto às pessoas das ex-colónias serem bem recebidas em Portugal, é falso. Foram mal recebidas pelos portugueses e pelo Estado português. Ficaram a comer o pão amassado pelo Diabo em filas de espera, sem dinheiro no bolso, sem poderem tomar banho, a serem olhados de lado por muitos dos que festejavam o 25 de Abril — viram-se sem nada e a serem acusados de ser fascistas ou assassinos ou racistas. Mas também lhes deram facilidades especiais no ingresso na função pública e na criação de empresas, o que gerou alguma animosidade entre os portugueses do lado de cá, que não usufruíam dos mesmos benefícios.

Não é possível esquecer isso do racismo e da discriminação, porque, como vimos na resposta anterior, há racismo em achar que 160 mil monhés por ano são imigração mais descontrolada do que 320 mil brancos por ano, tal como há discriminação latente na forma como os retornados foram recebidos de volta em Portugal (já para não falar na discriminação dos Portugueses não brancos das colónias, que deixaram de ser considerados portugueses e consequentemente impedidos de regressar, a partir de 1975).

A televisão também não está propriamente dominada pelos da esquerda. A RTP é propriedade do Estado Português, o qual, desde 1976, foi governado pelo PS, que está à esquerda, durante um total de 26 anos e pelo PSD, que está à direita, durante um total de 22 anos — o que a coloca mais ou menos ao centro, suponho eu. A SIC foi fundada por Francisco Pinto Balsemão, que é também fundador do PSD e chegou a ser deputado no tempo do Estado Novo — portanto, também não há-de ser dominada pelos da esquerda. A TVI pertence a Mário Ferreira, Tony Carreira e Cristina Ferreira, entre outros. Nenhum deles é conhecido pelas suas posições de esquerda, tanto quanto sei. A CMTV pertence, em parte, ao jogador de futebol Cristiano Ronaldo, que janta com o Presidente dos EUA, Donald Trump, e confraterniza com o Sultão da Arábia. Julgo que, com este currículo, é difícil acusá-lo de ser de esquerda.

A esquerda também não recebe milhões dos contribuintes. Nem sequer percebo muito bem o que é suposto isto querer dizer. Se for porque os contribuintes pagam os salários dos comentadores políticos, além de não serem milhões, há mais comentadores de direita do que de esquerda. Portanto, quem há-de ter mais medo de perder «os milhões», em quantidade, hão-de ser os da direita e não os da esquerda. Se for porque os da esquerda são funcionários públicos e auferem os salários pagos pelos contribuintes, então é impossível dizer se isso é verdade ou mentira, porque não se perguntam orientações políticas nos concursos para a função pública e, por consequência, é impossível saber quantos funcionários públicos são de esquerda e de direita. Se for porque os da esquerda recebem subsídios para fazerem actividades culturais, mesmo admitindo que todos os artistas são de esquerda, os milhões do orçamento do Ministério da Cultura resumem-se a 683, o que, apesar de ser muito, dá €3.600 (para o ano todo, ou €300 por mês) a cada trabalhador do sector da cultura em Portugal. Não se pode dizer que seja uma fortuna e que falar de racismo e discriminação seja a melhor forma de garantir a continuidade do seu pagamento — pelo menos, nesta dimensão da realidade!

Acho que, aqui, nada há a responder. De facto, Portugal fica longe do Bangladexe. Ainda assim, convém notar que já no século XVI havia emigrantes portugueses no Bangladexe, de modo que é um bocado injusto querer proibi-los de fazerem o caminho oposto agora.

Há três afirmações aqui: os imigrantes do subcontinente indiano querem vir para Portugal, para receberem subsídios pagos pelo Estado Português; os imigrantes do subcontinente indiano querem vir para Portugal, para poderem entrar no espaço europeu e chegar a outro país melhor do que o nosso; e os imigrantes do subcontinente indiano não respeitam as nossas tradições e vêm para cá fazer o que querem, incluindo cometer crimes.

Comecemos pela primeira. Não há qualquer subsídio específico para apoio imediato a imigrantes quando entram em Portugal. Os únicos subsídios e direitos de que eles podem usufruir são os mesmos a que os portugueses também têm direito, exactamente nos mesmos termos que os portugueses, incluindo terem de ter descontado antes. E, mesmo assim, os imigrantes descontaram 3,64 mil milhões de euros para a Segurança Social em 2024 e apenas receberam 688 milhões em subsídios, o que significa que a Segurança Social portuguesa lucrou 2,96 mil milhões de euros com os imigrantes. Se alguém vive à custa de alguém, são os desempregados e reformados portugueses à custa dos trabalhadores imigrantes.

Passemos à segunda afirmação, que é a mais fácil, na verdade: se os imigrantes só vêm para Portugal, para poderem entrar no espaço europeu e chegar a outro país melhor do que o nosso, então o problema está resolvido à partida: tudo o que temos de fazer é esperar calmamente que eles partam para o país onde pretendem efectivamente assentar arraiais e abandonem esta paragem intermédia do percurso.

Terminemos com a terceira afirmação, sobre o respeito das nossas tradições e a criminalidade. A única coisa que podemos exigir aos imigrantes é que respeitem a lei, que é igual para todos. Nesse campo, se a população imigrante aumentou, seria de esperar que a criminalidade tivesse aumentado com ela, o que não se verificou. Aliás, se considerarmos que 14% da população residente é estrangeira (um cálculo meu, com base em informação recolhida no Eco e no INE) e que 16% dos arguidos são estrangeiros (percentagem que inclui também os não residentes), podemos inferir que a taxa de criminalidade andará ela por ela entre portugueses de gema e imigrantes (o que releva muito, se a isto acrescentarmos que a precariedade laboral, a exclusão habitacional e a falta de acesso a serviços básicos — factores promotores da criminalidade — são problemas que afectam mais os imigrantes).

Então, e por que apenas podemos exigir aos imigrantes que respeitem a lei? E as tradições que não estão vertidas na lei? Se nem os portugueses respeitam as tradições portuguesas, que moral têm para exigir aos imigrantes que o façam? Em Trás-os-Montes, Minho e Douro Litoral, come-se polvo na Consoada; nas Beiras, na Estremadura e no Ribatejo, bacalhau (mas não chegam a acordo em relação ao acompanhamento); no Alentejo e no Algarve, come-se galo; na Madeira, espetada, como no resto do ano; e, nos Açores, come-se galinha. Podia continuar, porque a gastronomia (natalícia ou não) não é o único exemplo das tradições portuguesas não tão consensuais quanto nos querem vender. O importante, para o caso, é: é este povo que quer obrigar os imigrantes a abandonar a picanha e o caril em prol da sua tradição? Que tradição, ao certo?

Além disso, todos os estudos empíricos sobre migrações concordam que, embora a aculturação seja rara na primeira geração, é bastante comum e substancial na segunda geração e nas gerações seguintes, resultando na adopção dos valores culturais da sociedade do país de acolhimento. Ou seja, os imigrantes que cá chegam até podem continuar a preferir picanha ou caril (não é por acaso que é a segunda vez que falo destes dois ingredientes: o Brasil e a Índia são os dois países no topo da lista de países de origem dos imigrantes em Portugal), mas os seus filhos vão começar a gostar de bacalhau — e os netos vão adorá-lo! Portanto, tal como na questão dos que vêm para cá em busca de acesso ao espaço europeu, basta esperar o tempo suficiente para que o problema se resolva a si mesmo.

Não, não vi, porque não aconteceu. A criminalidade violenta reduziu-se 24% nos últimos dez anos. O número de furtos reduziu-se 51% no mesmo espaço de tempo. Apenas as violações aumentaram (45%), mas uma parte substancial tem lugar entre conhecidos e familiares, não entre imigrantes e mulheres aleatórias no meio da rua.

Ignorando por momentos o facto de que «tiram isso da cabeça» é o contrário de «eu não sei onde vocês [foram buscar essa ideia]» (eu tenho muita dificuldade em dar qualquer crédito a quem não domina o Português, mesmo que tenha nascido por cá), é fácil responder a esta: foi André Ventura que disse que queria uma ditadura, quando pediu «três Salazares para pôr isto na ordem», no mesmo dia em que disse que «nós precisamos de outro regime, não é uma questão de retórica».

Trocando isto por miúdos: na opinião de André Ventura, Portugal precisa doutro regime político em vez da democracia em que vive — palavras do próprio. Isto não é uma questão retórica, disse ele também, ou seja, a mudança de regime não é figurativa, é literal e passa por abandonar a Constituição de 1976 e fazer uma nova (é isso que consubstancia uma mudança de regime). E, para o novo regime, são precisos três Salazares. Tendo em conta que o original era um ditador assumido, enfiar três no novo regime só pode redundar numa ditadura três vezes mais extrema.

André Ventura é um criminoso condenado e um mentiroso compulsivo, que dirige ilegalmente um partido (que devia ser ele mesmo ilegal) pejado de ladrões, pedófilos, bêbados, imigrantes ilegais, caloteiros, pais relapsos, terroristas, plagiadores, tachistas e meninas do Only Fans. Qualquer coisa é melhor do que isto.

O que é «destruir Portugal»? Não sei bem. Mas o conceito de desenvolvimento humano, que é definido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento como aquele que situa as pessoas no centro do desenvolvimento, promovendo a realização do seu potencial, o aumento das suas possibilidades e o desfrute da liberdade de viver a vida que elas desejam, parece-me adequado para medir de que forma um país está ou não «destruído». O desenvolvimento humano é medido pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que foi criado em 1990, com o objectivo de desviar o foco do desenvolvimento do âmbito do mero crescimento económico. Este índice aumentou:

  • 0,065 entre 1990 e 1995 (Governo do PSD);
  • 0,032 entre 1995 e 2002 (Governo do PS);
  • 0,013 entre 2002 e 2005 (Governo do PSD);
  • 0,023 entre 2005 e 2011 (Governo do PS);
  • 0,014 entre 2011 e 2015 (Governo do PSD);
  • 0,024 entre 2015 e 2022 (Governo do PS).

O que estes números nos dizem, antes de mais, é que, ao contrário dos arautos da desgraça dos últimos cinquenta anos, Portugal progrediu, pelo menos, durante os últimos trinta e cinco (porque o IDH só começou a ser medido em 1990 e não me apeteceu tentar calculá-lo eu para os anos entre 1975 e 1990 — nem sei se conseguiria). Este facto (se outros, nomeadamente a liberdade, não bastassem) permite-nos concluir que a democracia foi boa para o nosso País. A segunda coisa que eles nos dizem é que Portugal progrediu durante os Governos do PS, ao contrário do que afirma quem diz que o PS «destruiu Portugal», e, nalguns casos, até progrediu mais do que durante Governos do PSD.

Dito isto, espero que a alma desesperada encontre utilidade nesta longa sugestão de resposta. Penso que foram refutados todos os pontos essenciais da argumentação (se é que podemos chamar argumentação a uma sucessão de termos baseados em premissas falsas ou ilógicas). Acima de tudo, espero que quem ler ou ouvir argumentos semelhantes (porque os há muito por aí) se não deixe enganar e opte por formular as suas opiniões com base em factos e no melhor conhecimento que temos sobre a realidade. 

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