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Mensagens

Os rebuçados da imigração e a falácia das contas certas feitas com números errados

Há um vídeo, publicado há anos no Youtube , que me apareceu hoje, republicado no Facebook  por um grupo de fachos , e que quero comentar. O dito vídeo é conhecido como o «gumball speech» e nele um activista anti-imigração utiliza milhares de rebuçados para representar os pobres do mundo e um único copo para representar os imigrantes que os Estados Unidos recebem anualmente. A mensagem pretende ser simples e devastadora: perante três mil milhões de pessoas a viverem em situação de pobreza extrema, receber um milhão de imigrantes por ano seria estatisticamente insignificante e, por isso, a imigração não pode ser considerada uma solução humanitária para a pobreza mundial. À primeira vista, parece certo, o que é normal: a vantagem do populismo é que é fácil concordar com ele. O problema é que a força visual da demonstração esconde fragilidades lógicas e factuais consideráveis. A primeira delas é a mais básica de todas: os números utilizados estão errados ou, pelo menos, profundam...
Mensagens recentes

É melhor viver numa ditadura igualitária, ou numa democracia desigual?

  O gráfico acima representa o coeficiente de Gini , que mede a desigualdade dos rendimentos, em função do índice de democracia, publicado pelo The Economist , que mede — surpresa! — a qualidade da democracia. Portanto, para simplificar e reduzir a perífrase, chamemos desigualdade ao coeficiente de Gini, democracias aos países com índice de democracia acima de 6 e ditaduras aos países com índice de democracia abaixo de 6. Olhando para o gráfico tal como ele está, não diz grande coisa. Mas, se soubermos que a desigualdade média é de 36,7, um padrão interessante toma forma: quase dois terços (61,2%) das democracias têm um nível de desigualdade abaixo da média, enquanto mais de metade (51,5%) das ditaduras têm um nível de desigualdade acima da média. Se compararmos os extremos (democracias plenas, acima de 8, com regimes autoritários, abaixo de 4), o padrão é ainda mais claro: 87,0% das democracias plenas têm um nível de desigualdade abaixo da média, enquanto 48,7% dos regimes autorit...

Sugestão de leitura

Eu nada sei de futebol e menos ainda sei da sociologia do futebol. Mas aprecio muito um texto que a historiadora Raquel Varela escreveu há já uns anos e costumo citá-lo e recomendar a sua leitura. O original está à distância dum clique. Mas, como, na Internet, tudo é efémero, a transcrição vem já aqui abaixo, não vá um dia a hiperligação acima vir a dar para nenhures, e de modo a poder, se isso acontecer, continuar a recomendar a sua leitura a pessoas com quem me vou cruzando. Eu — que não sei uma única regra do jogo — passo a explicar-vos o que é o futebol em Portugal. E porque há um Berardo no meio disto tudo, ou um Cristiano Ronaldo que foge aos impostos. O Benfica ou outro grande não são clubes. Não são grupos de pessoas que se juntam para jogar futebol. São, principalmente hoje, um negócio. Tanto que se chamam S.A.D., isto é, sociedades anónimas (anónimas!), capitalizadas através da banca, que forma juros com esses capitais — dinheiro que não vem de lado algum a não ser, mais ced...

Sugestão televisiva?

Quando sugerimos um livro, ou um artigo de jornal, falamos em sugestão de leitura. Quando passamos à leitura online , o termo pode ser reutilizado, sem perda de significado. No entanto, não conheço uma expressão equivalente, para quando se pretende sugerir um programa de televisão, ou uma série, ou algo do género; e muito menos quando se trata dum vídeo no Youtube . Fica uma tentativa, que dá o título: sugestão televisiva. Mas, basicamente, o que pretendo dizer é: se tiveres oportunidade, vê este vídeo . É uma entrevista ao historiador Yuval Noah Harari, em que ele discute o paradoxo da inteligência humana, argumentando que a nossa tendência autodestrutiva deriva de redes de informação deficientes, que privilegiam a ordem e a ficção em detrimento da verdade. Na sua visão, a informação funciona historicamente como um mecanismo de conexão social e não como um espelho da realidade, o que permite que mitologias e ilusões dominem o discurso público. A ascensão da inteligência artificial agr...

O que as eleições presidenciais nos dizem sobre o perfil dos eleitores

Numas eleições, cada pessoa tem os seus motivos para votar em quem vota ou para se abster. Mas, olhando para a caracterização socioeconómica e demográfica dos eleitores que se vê na imagem acima, há dois padrões fáceis de perceber e que importa relevar: 1 em cada 3 analfabrutos (gente que não completou o secundário) votou Ventura na primeira volta, contra 1 em cada 10 doutores (gente que completou o ensino superior) e, mesmo assim, o 1 em 10 deve ser doutor da mula ruça; e 1 em cada 4 homens votou Ventura, contra 1 em cada 5 mulheres. Portanto, os homens querem voltar ao tempo em que mandavam nas mulheres; e os ignorantes são só ignorantes. Mas vale a pena também observar um detalhe relativamente à segunda volta. Tal como se pode ver no gráfico acima, o candidato excluído na primeira volta que mais votos deu a André Ventura, quer em termos absolutos, quer em proporção dos votos que tinha recebido, foi Cotrim de Figueiredo. Não surpreende: o neoliberalismo é, na s...

Mateus 22:21

«Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus», disse Nosso Senhor Jesus Cristo. Há várias interpretações possíveis, mas hoje foquemo-nos numa, relativamente simples: a relação entre a política e a vida comunitária, religiosa e popular. Aproveitar as festas dos santos populares para fazer campanha eleitoral, como fez Cotrim de Figueiredo , é misturar desnecessariamente uma festa popular com política. É manchar a alegria própria da época com discussões ideológicas (sem prejuízo da relevância dessas discussões, em sede própria) e rebaixar o debate político a virar bifanas e salsichas.

Sete perguntas e sete respostas

Não sei quem é Teresa de Melo Ribeiro . Às tantas, é muito famosa e importante, mas a verdade é que nunca ouvi falar dela, até hoje. Hoje, fiquei a saber que escreve no Observador , o que já diz muito sobre uma pessoa. Um dia destes, hei-de desenvolver sobre este assunto. Como colunista, apresenta-se como «advogada, mandatária da Iniciativa Popular de Referendo #simavida sobre a (des)Penalização da Morte a Pedido». Isso também diz muito sobre uma pessoa: sobretudo, diz que gosta de impor as suas opiniões aos outros. Um dia, também hei-de desenvolver sobre este assunto. No artigo de opinião que assinou hoje (publicado às 0h12m, vá-se lá saber porquê), deixou ficar sete perguntas. Eu, que não sou de deixar ninguém sem resposta, não resisti a deixar ficar aqui as minhas sete respostas. «Então a DGS acha que se deve falar, aos bebés dos 0 aos 3 anos de idade, sobre o corpo, emoções e segurança, diversidade e respeito??» Sim. «Falar» talvez não seja o termo mais adequado; não se vão fazer ...