Há um vídeo, publicado há anos no Youtube, que me apareceu hoje, republicado no Facebook por um grupo de fachos, e que quero comentar.
O dito vídeo é conhecido como o «gumball speech» e nele um activista anti-imigração utiliza milhares de rebuçados para representar os pobres do mundo e um único copo para representar os imigrantes que os Estados Unidos recebem anualmente. A mensagem pretende ser simples e devastadora: perante três mil milhões de pessoas a viverem em situação de pobreza extrema, receber um milhão de imigrantes por ano seria estatisticamente insignificante e, por isso, a imigração não pode ser considerada uma solução humanitária para a pobreza mundial.
À primeira vista, parece certo, o que é normal: a vantagem do populismo é que é fácil concordar com ele. O problema é que a força visual da demonstração esconde fragilidades lógicas e factuais consideráveis.
A primeira delas é a mais básica de todas: os números utilizados estão errados ou, pelo menos, profundamente desactualizados. O autor cita dados que atribuem à China cerca de 480 milhões de pessoas a viverem com menos de dois dólares por dia e à Índia cerca de 890 milhões. Ora, a evolução económica destes dois países nas últimas décadas foi precisamente um dos maiores factores de redução da pobreza de toda a história da humanidade. Hoje, os dados do Banco Mundial mostram uma realidade completamente diferente, com a pobreza extrema na China praticamente erradicada e com uma redução igualmente significativa na Índia. O próprio Banco Mundial sublinha que o número global de pessoas em pobreza extrema caiu drasticamente desde os anos 90.
Pode parecer um detalhe, mas não é. Quando quase metade da demonstração assenta nos números atribuídos à China e à Índia, deixar cair esses números significa deixar cair uma parte substancial do argumento.
Mais importante ainda, existe aqui um problema lógico fundamental. Uma das regras mais elementares do raciocínio é que de premissas falsas não se podem extrair conclusões válidas. É verdade que uma conclusão obtida a partir de premissas erradas pode, por coincidência, acabar por ser verdadeira. O que não pode é ser considerada demonstrada. Se os números estão errados, a demonstração falhou, independentemente do impacto emocional produzido pela montanha de rebuçados.
Podíamos terminar por aqui. O vídeo está errado, porque parte de números errados — e ponto final. Mas admitamos, para efeitos de discussão, que os números estavam correctos.
O vídeo continua a sofrer de uma segunda fragilidade: a de assumir que uma medida só merece ser considerada útil se resolver o problema na sua totalidade.
Este tipo de raciocínio aparece frequentemente em debates políticos. Como uma determinada política não resolve todos os casos, conclui-se que não resolve caso algum. Como não elimina toda a pobreza, não vale a pena reduzir alguma pobreza. Como não salva todos os doentes, não vale a pena salvar alguns. É uma forma de argumentar que, levada às suas últimas consequências, tornaria inútil praticamente toda a acção humana.
Quando um milhão de pessoas melhora substancialmente as suas condições de vida, isso não deixa de ser relevante só porque existem outros milhões que continuam em situação difícil. Ajudar uma parte dos necessitados não é o mesmo que não ajudar um único deles. Na verdade, a escolha raramente é entre ajudar todos ou ajudar alguns; quase sempre é entre ajudar alguns ou não ajudar nenhum.
O vídeo cria, assim, uma falsa dicotomia entre imigração e desenvolvimento económico dos países de origem, como se ambas as estratégias fossem mutuamente exclusivas. Não são. Aliás, é precisamente neste ponto que o discurso se torna mais curioso. O autor conclui que os pobres devem ser ajudados onde vivem. Concordo inteiramente. A esmagadora maioria da população mundial nunca emigrará para a Europa, para os Estados Unidos ou para qualquer outro país desenvolvido. Qualquer estratégia séria de combate à pobreza terá sempre de passar pelo desenvolvimento económico, institucional e social dos países de origem. A questão interessante é outra: será essa, de facto, a prioridade das forças políticas que normalmente apreciam e partilham este vídeo?
Quando se afirma que a solução não está na imigração mas sim na ajuda aos países de origem, é legítimo perguntar que políticas concretas têm sido propostas para atingir esse objectivo. Nas últimas décadas, uma parte significativa da direita ocidental mostrou-se frequentemente céptica em relação à cooperação internacional, à ajuda ao desenvolvimento e a várias formas de apoio económico aos países mais pobres. Ora, se se rejeita a imigração e simultaneamente se rejeitam os instrumentos de desenvolvimento, a consequência prática não é ajudar as pessoas onde elas vivem. É simplesmente deixá-las entregues à sua sorte.
Existe ainda outro aspecto que o vídeo ignora quase completamente. Quando fala de um milhão de imigrantes por ano, refere-se apenas à imigração legal. Independentemente da posição que cada um tenha sobre a imigração clandestina, qualquer análise séria dos fenómenos migratórios tem de considerar a realidade completa. Caso contrário, as contas deixam de corresponder ao mundo real e passam a corresponder apenas à parte da realidade que melhor serve a conclusão pretendida.
Também a questão da chamada «fuga de cérebros» é apresentada de forma excessivamente simplista. É verdade que alguns países perdem profissionais qualificados para economias mais desenvolvidas. Mas também é verdade que milhões de emigrantes enviam remessas para os seus países de origem, financiam investimentos, apoiam familiares, criam redes empresariais internacionais e, não tão raramente quanto isso, regressam com conhecimentos e capitais que dificilmente teriam adquirido, se tivessem permanecido onde estavam. O efeito líquido da emigração está longe de ser tão linear quanto o vídeo sugere. A própria experiência chinesa ilustra o que estou a dizer. Ao longo das últimas décadas, centenas de milhares de estudantes, investigadores e empresários chineses passaram pelas universidades e empresas dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. Muitos permaneceram no exterior, mas muitos outros regressaram à China, transportando consigo conhecimentos técnicos, experiência de gestão, redes de contactos internacionais e acesso a capital. A transferência de conhecimento resultante destes movimentos contribuiu para acelerar a modernização tecnológica do país. A emigração não funcionou apenas como uma fuga de cérebros; em muitos casos funcionou como um mecanismo de circulação de cérebros.
Finalmente, o argumento esquece algo particularmente relevante para as sociedades ocidentais contemporâneas: a imigração não existe apenas para benefício dos imigrantes. Grande parte dos países desenvolvidos enfrenta há décadas um problema demográfico grave. As taxas de natalidade encontram-se abaixo do nível de substituição, a população está a envelhecer rapidamente e, em muitos casos, o saldo natural é negativo, significando que morrem mais pessoas do que aquelas que nascem. Sem imigração, vários destes países veriam a sua população activa diminuir de forma acelerada, colocando uma pressão crescente sobre os sistemas de pensões, os serviços públicos e a sustentabilidade económica em geral. A imigração não é apenas uma política de solidariedade; é também uma resposta pragmática a necessidades estruturais das sociedades de acolhimento. Isto não significa que qualquer política migratória seja automaticamente boa, nem que não existam limites de integração, capacidade habitacional ou coesão social. Significa apenas que a imigração não deve ser analisada exclusivamente como um acto de caridade para com os mais pobres do mundo. Ela responde também a necessidades objectivas das sociedades de acolhimento. Aliás, quando os países de acolhimento deixam de oferecer emprego, salários dignos e perspectivas de progresso, os fluxos migratórios tendem a inverter-se. Portugal conheceu essa realidade durante os anos da troika, quando muitos estrangeiros partiram (e muitos portugueses fizeram exactamente o mesmo). É uma observação tão simples quanto incómoda: os imigrantes não são atraídos pela geografia nem pela cultura, mas pelas oportunidades económicas. Nesse sentido, existe uma forma infalível de reduzir a imigração: chama-se empobrecimento.
Por fim, importa esclarecer um equívoco frequente. A posição tradicional de grande parte da esquerda sobre a imigração não assenta necessariamente na ideia de que a imigração é economicamente boa ou má. Assenta, acima de tudo, numa questão moral mais profunda: a convicção de que o local onde cada pessoa nasce é um acidente da sorte e não um mérito próprio. Nenhum ser humano escolhe nascer na Suíça, em Portugal, na Somália ou no Afeganistão. Mais: quando se fala do país de origem como se fosse uma categoria natural e imutável, esquecemo-nos da velocidade com que a História muda os mapas. Um habitante de Sarajevo podia nascer jugoslavo e morrer bósnio sem nunca mudar de casa. Um habitante de Praga podia nascer na Checoslováquia e morrer na Chéquia, sem ter dado opinião sobre o assunto. Um iraniano nascido em 1978 e outro nascido em 1980 vieram ao mundo em regimes radicalmente diferentes, apesar de terem nascido no mesmo país. Se a nacionalidade dependesse do mérito individual, talvez estas diferenças fossem justificáveis. Mas dependem apenas do momento e do lugar em que cada um teve a sorte, ou o azar, de nascer e estes factores condicionam de forma decisiva as oportunidades disponíveis ao longo da vida. Nascer num país rico ou num país pobre pode determinar o acesso à educação, aos cuidados de saúde, à segurança, à liberdade política e até a esperança média de vida, sem que o indivíduo tenha desempenhado qualquer papel nessa circunstância inicial.
É desta constatação que nasce, para muitos sectores da esquerda, a defesa de uma maior liberdade de circulação. Não porque as fronteiras sejam necessariamente ilegítimas, nem porque os Estados não tenham o direito de regular a entrada de estrangeiros, mas porque consideram moralmente difícil de justificar que o acaso geográfico e histórico do nascimento determine de forma tão absoluta o horizonte de vida de cada pessoa. A questão central, para esta visão do mundo, não é saber se a imigração é boa ou má. É saber até que ponto uma sociedade justa tem o direito de impedir que alguém procure construir uma vida melhor para si e para a sua família, quando a única razão que o separa dessa oportunidade é ter nascido do lado errado de uma fronteira.
No fundo, o vídeo dos rebuçados consegue ser simultaneamente correcto e enganador, como é apanágio do populismo. Correcto, porque lembra algo que muitas vezes é esquecido: a pobreza mundial não será resolvida através da imigração. Enganador, porque tenta transformar essa verdade parcial numa condenação da própria imigração.
A realidade é menos espectacular, mas também mais complexa. A imigração não resolve a pobreza mundial. O desenvolvimento dos países de origem continua a ser essencial. Porém, entre uma solução imperfeita que ajuda milhões de pessoas e uma solução perfeita que nunca chega a existir, a escolha não deveria ser difícil. Afinal, o facto de não conseguirmos ajudar todos nunca foi uma boa razão para deixarmos de ajudar alguém.
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